quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Às vésperas de um show que eu ouço e vejo todos os dias.

 Demorei pra sintetizar todas as sensações (como se isso fosse possível) por querer ter o poder de falar de todas elas. Aviso que falharei. Que uma ou outra escaparão da minha análise. Não por falta de atenção, mas por serem inomináveis. Conhecidas apenas por quem ousa senti-las. E daí por diante nomeá-las da forma como quiserem pra que o outro possa tentar saber como é a experiência antes de vivencia-la

É fácil escutar um CD.
Você compra porque gosta, porque alguém te indicou, porque viu na TV ou por qualquer outro motivo, coloca-o no rádio, no computador ou em qualquer outro player e escuta. Da sua forma. A música embala a atividade que você faz ao mesmo tempo. As músicas acabam, você guarda o CD feliz com a aquisição.
É difícil ouvir um CD.
Você espera há meses por seu lançamento, porque gosta. Porque quer ouvir o que é que dessa vez o cantor vai falar, vai cantar. Que som novo é esse que os instrumentos vão tocar. Era mais ou menos essa a espera.
Saí da aula na noite do tal lançamento do CD pela internet. Pedi desculpas aos amigos pois naquela sexta-feira eu não os acompanharia. Fui correndo pra casa, pro meu quarto e ajeitei tudo como se preparasse o espaço pra um ritual, um acontecimento. Abri o notbook, entrei no site que automaticamente começou a reproduzir uma nova canção e fiquei por ali, deitada, com os olhos voltados pra tela. Me desculpem a minuciosidade dos detalhes, mas eles são extremamente necessários pra que a narrativa seja ao menos, sensorial.
Durante o som novo, imagens. Uma invadindo a outra. O universo, o mar, a lua as folhas, o coqueiro, os rostos... Um universo paralelo se abrindo ali, à duas palmas do meu rosto, refletindo em mim.
Tudo me agradando imensamente. Não porque eu sou fã. Não qualifico o som que ouço pelo grau de admiração do artista, mas sim pelas sensações que ela me traz. O frio na barriga a cada faixa que tocava, as borboletas que voavam em mim. As letras, os acordes, os arranjos, as vozes ... O "jeito de tocar o coração" que o artista encontra, faz com que todos esses detalhes sejam pontes pra admira-lo.
O chão que de fato desmorona nos "us" de "Alento" e a sensação da queda livre enquanto você dança, a singeleza de "De Graça" que, depois de ouvida, permeia todos os dias, pedindo pra desfrutar a graça de viver, as imagens que "Temporal" trazem à mente, como se de fato estivesse vendo o temporal, as bruxas, a lua, o mar... A voz da Laura acompanhada de um crescente musical que sussurra "acorda" em meus ouvidos depois de um tempo dizendo "Tudo bem, Tanto Faz", a coragem que "Nada a Ver" inspira quando falta a coragem de dizer que a entrega também é felicidade. "A Vida é Bélica", minha mais nova relação de amor, o alguém que tenta nos falar, que está além de mim, de nós e que nos ouve, provando que não falamos sozinhos, que não estamos sozinhos... que o silêncio é revelador. Não há quem saia ileso do amor depois de ouvir "O Melhor da Vida", música de fechar os olhos e dançar de rosto colado com alguém, de dois pra lá, dois pra cá, voltinhas e sorrisos... "Um de Nós" e "Pra Gente se Desprender" são tiros na alma... O recomeço depois da ferida, curadas pelas melodias, pelos instrumentos, pela orquestra de variedades, pela voz aguda, crescente e infinita... É melancolia, mas não o tempo todo. É tristeza necessária pra nascer poesia. É poesia quando Deus invoca de tirá-la de mim, são as asas do beija flor batendo, bem lentas no teto branco do meu quarto, que se tornou geleira, que virou mar, universo, e me desprendeu dali...E que me levou pra outro lugar. Que levou o beija-flor pra descansar aos acordes de "Feito Pra Acabar", o novo que vinha ao meu encontro em uma melodia sobreposta. Imersão. Quebra brusca na viagem e nas lágrimas quando ouço 'para de chorar' em "Julieta", o sorriso manhoso que a mente cria, aquele, entre os lençóis, de "manhã - ãhã - nhã- ãhã" em "Sorriso Madeira", a sutileza infantil, inocente, sincera em "Só Eu Sou Eu" que cria o desejo de estar naquele coro que relembra que cada um é um ser de luz e a lisergia em "9 Luas", todo o conjunto de letra e melodia que proporciona um passeio, lento por todas elas, como se flutuasse, e uma confissão que vira desejo, missão, no fim da viagem: "dividir..."
A música termina e os pulmões pedem ar como que voltassem a superfície depois de um mergulho profundo. O estado corporal depois desse acontecimento, me perdoem, é inominável. Eu fiquei olhando pra parede branca por minutos. De fato tinha voltado de um outro universo. A alma saiu pra passear e estava de novo em mim.
Foi uma experiência porosa que deixou os poros abertos por dias! Que alimentou minha sensibilidade e mostrou que a transcendência nunca nos foge, nós é que ficamos indispostos à ela. De fato, um tempo pairou no outro, instrumentais que transformavam sentimentos universais em meus e vice-versa. Nada como um humano pra entender o humano, pra falar do humano, pra cantar do humano. A música é tão poderosa quanto qualquer droga alternativa que nos amplie horizontes.
Eu ficaria horas tentando tecer sensações mesmo sem estar imbuída de conhecimentos técnicos. Porém, acredito que essas são suficientes. Tempo existirá para que muitas outras surjam e sejam compartilhadas. Elas já estão indo e vindo por aí nas ondas sonoras.
Música da alma. Daquelas que impregna depois que ouve e não vai embora depois do banho, depois da noite, depois das estações. Ela fica.
Hoje, ás vésperas de um show que eu não vou, concluo de uma vez e por todas que não é Deus quem nos tira a poesia, discordando de Adélia Prado, nós é que ás vezes deixamos de enxergá-la. Tua música tem o poder de trazer poesia para os dias de cegueira. Teu CD tem a capacidade de nos presentear com um show de imagens e sensações que eu posso ouvir e ver todos os dias em qualquer lugar. E eu não exagero. Basta conversar ou ler coisas de alguém que já ouviu pra saber que não exagero.
Basta que estejamos de coração aberto. Essa é a única condição. O restante, a música faz por si.
Que a vida sempre sopre sobre nós os bons ventos, que curem a cegueira pra que possamos enxergar além do que vemos, sentir além do que sentimos. Pra que façamos e sejamos arte. Pra que essa arte te atravesse, me atravesse e atravesse tantos outros, residentes do céu no chão.

"De Graça" vem com tudo. Não se esquive.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Eu sou uma pessoa de muitos amores.

Me apaixono fácil.
Por dentro e por fora de alguém.
Os olhos me convidam e se eu mergulho, dificilmente volto a superfície ilesa.
Invento amores quando eles não me correspondem e acabo sendo feliz em minha ilusão, amando, amando...
Porém, se a situação é inversa e se o amor me sorri: pimba! O que já era vulnerável se torna entrega. Eu não penso duas vezes antes. A razão fica gritando em meus ouvidos vivências passadas, me impõe medo, mas eu não ligo, me arrisco.
Todo cuidado é pouco e minha única cautela é em não repetir erros cometidos. Erros não funcionam com ninguém.
A sintonia é total.
Eu amo inteira. De pensar quando acordo e quando durmo. De dar o meu melhor. De usar o meu melhor pra fazer o amor sorrir.

As noites seguem em insônia provocada pelo desejo que me apressa.
Vira e mexe eu me deparo com alguém que bagunça tudo.
Que venha o que vier e o que tiver de ser.
Que venha o que me faça ficar ainda mais apaixonada por várias vidas feitas em duas.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Queria que soubessse.

Eu iria fazer aqui uma introdução, mas a vontade de ser direta, não me deixa.
Eu vim falar sobre você. E não é porque não nos vemos mais todos os dias, porque ainda assim eu iria ter inspiração pra escrever. É porque me deu vontade. É porque, depois daquele comentário do "é porque vocês se amam demais" - eu senti um amor imenso. Uma sorte imensa.
Sorte de ter tua atenção, teu amor e carinho.
Sorte de ter você com todas suas qualidades e defeitos.
Sorte de você dizer que me ama de qualquer maneira.
Queria te dizer isso: que eu tenho sorte. Que você é uma das mulheres mais incríveis que eu já conheci nessa minha vida. Que gosto do teu sorriso, da sua voz cantada, da sua opinião, da sua inteligência, da sua curiosidade, dos seus cabelos, das tuas tatuagens, da cor da tua pele, do teu desespero, da tua ansiedade, da tua paz, da tua liberdade, da passadinha de mão no meu rosto, da sua risada, da sua concentração, da sua irritação, da forma como você lida com a vida..
Eu gosto.
Gosto e me apaixono por tudo isso e por você todas as vezes.
E quero que você se lembre disso todas as vezes que se olhar no espelho.
Se teu gosto por si mesma não for suficiente, lembre-se do meu, do que me faz gostar de você.

Você é personagem para minhas boas histórias.
Real em minha vida.
Te amo, morena.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Não aos (artistas) atores sagrados. (BOAL, 1977, p.17)

"Não existem "atletas": todos os homens são atléticos e há que desenvolver as potencialidades de todos, e não só de alguns eleitos que se especializam, enquanto os outros ficam relegados a simples espectadores." (Boal, Augusto, 1977, p.17)


Há dois anos atrás, quando comecei a me interessar pelo teatro popular, político, mais precisamente pelo Teatro do Oprimido de Augusto Boal, procurei lugares pelo Brasil onde eu pudesse fazer cursos, oficinas ou workshops pra saber mais sobre o assunto.
Natural. Todo artista que quer conhecer ou se especializar em algo procura fontes na busca de saciar sua sede por aprendizado e experiência. Encontrei alguns lugares, especialmente o CTO (Centro de Teatro do Oprimido) localizado no Rio de Janeiro, um centro de pesquisa e difusão que desenvolve a metodologia específica do Teatro do Oprimido. Lá são oferecidos cursos, workshops, leituras dramáticas... Todas envolvendo o legado de Augusto Boal.
Lembro que fiquei encantada com tudo e busquei por mais informações pra embarcar até o espaço "Boalviano". Nesse espaço de tempo, uma antiga chefe da biblioteca que eu trabalhava, sabendo do meu interesse sobre o assunto, me deu uma revista da SBAT, número especial que falava sobre o Boal e na revista, uma matéria sobre o CTO. Me lembro do meu entusiasmo que foi rapidamente ferido quando li algo do tipo "o curso não se destina à atores profissionais ou que possuem algum tipo de formação..." Tudo bem. Eu não era profissional, mas estava em uma escola de formação de atores há três anos, ou seja, teria acabado ali meu anseio por algo que eu nem tinha começado a me aventurar?
Felizmente segui minhas pesquisas sobre o assunto, mas nunca tirando da mente que talvez eu não pudesse vivenciar o método em um dos locais que eu tanto queria.
Dando um salto no tempo: em 2012, deparei-me com um assunto que até então eu conhecia só de ouvir falar, o tal do: "Fisique". A porra do porte físico específico para algum papel/personagem, agora tinha nome. Vou exemplificar para que possam entender melhor (por mais que o exemplo seja tosco, porém possível de acontecer) : A menina gorda não pode fazer o papel de princesa encantada porque é gorda. O tipo físico da atriz não convém ao tipo físico da personagem e foda-se se a atriz é dedicada na atuação. Prefere-se alguém que corresponda ao tipo físico da personagem.
Fui redundante no exemplo porque a devolutiva que obtive quando contestei tal "método" foi tão redundante quando. Ou seja, é isso e ponto.
Me lembro que fiquei louca. Quis desistir. Quiseram me confundir, dizendo que mesquinha era eu que não dava valor ao papel que me cabia. Que eu era quem tinha mania por liderança, por foco. Egocêntrica era eu.
Quase me confundiram.
A verdade era que eu via uma eleição. Onde apenas alguns eram eleitos para desfrutarem dos prazeres do "desenvolvimento de potencialidades" , enquanto outros (inclusive eu) éramos deixados de lado com: "o que você fizer, está bom." Encurtando a conversa, eu e os outros "exilados" do prazer teatral, fizemos do exílio fonte pra criação e motivo pra amadurecimento. Crescemos, demos a volta por cima e finalizamos o trabalho com a dignidade de quem descobriu seus potenciais amparados daqueles que também foram julgados incapazes. O trabalho foi concluído com sucesso, mas cheio das cicatrizes.
Outro salto no tempo: 2013.
Nesse ano eu conheci um teatro que permitia e potencializava todo e qualquer corpo em cena.
Até o meu, cheio das cicatrizes do ano anterior. Celebrei! Pela primeira vez em anos o teatro pulsou em minhas veias, aumentando meus batimentos cardíacos, deixando meu rosto corado, meu corpo suado, e ainda assim: eu estava linda em cena, eu era linda em cena, porque eu era eu.
Conheci pessoas maravilhosas, abertas, libertas, generosas. Mas como bem já disse o samba: "Laranja madura na beira da estrada tá bichada ou tem marimbondo no pé" - Tive o desgosto de conhecer dentro desse campo maravilhoso, pessoas que eram só palavras e intenções. Falsos profetas do teatro libertador.
Tudo era lindo.
O engajamento políco-artístico, a dança, o corpo, a beleza, a voz, as intenções a predestinação de ser artista desde o berço.
Tudo era podre.
Hipocrisia em todos os sentidos. Hipocrisia tamanha que destruía com toda e qualquer qualidade ou engajamento "artístico" visto até então. Se é que posso dizer, artístico.
Porém, apesar dos pesares, não desisti do que me libertou e me liberta. Acredito piamente que as boas intenções, acompanhadas de boas ações serão o antídoto pra tanta prepotência e hipocrisia. Vai chegar um momento (e está chegando) que o teatro não caberá nos umbigos dos atores sagrados desde o ventre materno.

Felizmente minha decepção com a possível ida do CTO no Rio de Janeiro teve um bonito fim. Precisei de algumas conclusões pessoais que recolhi nesses anos fazendo teatro e palavras do próprio criador do método do teatro do oprimido que agora descansa e acompanha seu legado teatral de algum lugar desse mundo. Quero compartilhar tais palavras com vocês:

"Primeiro NÃO: nãos aos "atores sagrados" preparados desde crianças para o seu sacerdócio; mas SIM ás técnicas que ajudem qualquer pessoa a utilizar o teatro como meio válido de comunicação. (...) SIM à arte de representar como manifestação possível para todos os homens (não existem 'atletas': todos os homens são atléticos e há que desenvolver as potencialidades de todos, e não só de alguns eleitos que se especializam, enquanto outros ficam relegados a simples espectadores) (...) qualquer pessoa pode começar a fazer teatro quando sentir necessidade disso. (...) A alfabetização teatral é necessária porque é uma forma de comunicação muito poderosa e útil nas transformações sociais. (...) há que utilizar todas as formas possíveis para promover a libertação; (...) NÃO aos 'atores sagrados'. Não estou contra os profissionais. Mas estou contra o fato de as representações se limitarem a profissionais! Todos devem representar!" (BOAL, 1977, p.17)

Sobre os meus estudos que com toda certeza continuarão no próximo ano, digo que é feito para aqueles que desejam MULTIPLICAR seus frutos, na árdua e possível missão do progresso social, da identificação dos opressores e libertação dos oprimidos, sendo o opressor você mesmo ou o seu próximo. Do teatro que trata o espectador como elemento fundamental da comunicação e o faz ativo. Pronto para atuar e mudar, seja ele ator ou não.
Sobre o triste método - que por mais passado que seja, ainda sobrevive - do físico ideal para qualquer linguagem artística, e sobre os falsos profetas da libertação teatral - artística - , digo pra que tomem cuidado. O método e os profetas são dissipadores de uma opressão interna que, quando não cuidada, te bloqueia pra sempre. Não existe isso. Não existe corpo "certo" ou "errado". Seu corpo é um templo! É seu. Sua abertura para experenciar é conquista de uma jornada.
Não importa se você é branco, negro, gordo, magro, de cabelo liso ou cacheado, alto, baixo, se manca, se é leve ou pesado, se tem olhos claros ou escuros, sorriso perfeito ou não, funcionário ou bancado por alguém ... NÃO IMPORTA NADA.
Importa sua disposição para experenciar e sua dedicação.
Importa você disseminar o que te libertou e não fazer disso, bomba de ar pro teu ego.
Não é provar para os outros, é provar para si mesmo e mostrar que é possível. Que o seu corpo é escada e não obstáculo.

Por ter sido alvo um dia e quase ter desistido do que me desperta todos os dias é que não aceito qualquer tipo de opressão. Principalmente as de cara lavada disfarçadas de boas intenções.
Por isso coloco a boca no trombone e digo: se você quer você pode, independentemente de qualquer coisa.
Eu quis e fiz.
Eu quero e continuo fazendo.
O mundo precisa de nós.
A arte precisa de nós.
Avante atores "profanos".