domingo, 22 de dezembro de 2013

Queria que soubessse.

Eu iria fazer aqui uma introdução, mas a vontade de ser direta, não me deixa.
Eu vim falar sobre você. E não é porque não nos vemos mais todos os dias, porque ainda assim eu iria ter inspiração pra escrever. É porque me deu vontade. É porque, depois daquele comentário do "é porque vocês se amam demais" - eu senti um amor imenso. Uma sorte imensa.
Sorte de ter tua atenção, teu amor e carinho.
Sorte de ter você com todas suas qualidades e defeitos.
Sorte de você dizer que me ama de qualquer maneira.
Queria te dizer isso: que eu tenho sorte. Que você é uma das mulheres mais incríveis que eu já conheci nessa minha vida. Que gosto do teu sorriso, da sua voz cantada, da sua opinião, da sua inteligência, da sua curiosidade, dos seus cabelos, das tuas tatuagens, da cor da tua pele, do teu desespero, da tua ansiedade, da tua paz, da tua liberdade, da passadinha de mão no meu rosto, da sua risada, da sua concentração, da sua irritação, da forma como você lida com a vida..
Eu gosto.
Gosto e me apaixono por tudo isso e por você todas as vezes.
E quero que você se lembre disso todas as vezes que se olhar no espelho.
Se teu gosto por si mesma não for suficiente, lembre-se do meu, do que me faz gostar de você.

Você é personagem para minhas boas histórias.
Real em minha vida.
Te amo, morena.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Não aos (artistas) atores sagrados. (BOAL, 1977, p.17)

"Não existem "atletas": todos os homens são atléticos e há que desenvolver as potencialidades de todos, e não só de alguns eleitos que se especializam, enquanto os outros ficam relegados a simples espectadores." (Boal, Augusto, 1977, p.17)


Há dois anos atrás, quando comecei a me interessar pelo teatro popular, político, mais precisamente pelo Teatro do Oprimido de Augusto Boal, procurei lugares pelo Brasil onde eu pudesse fazer cursos, oficinas ou workshops pra saber mais sobre o assunto.
Natural. Todo artista que quer conhecer ou se especializar em algo procura fontes na busca de saciar sua sede por aprendizado e experiência. Encontrei alguns lugares, especialmente o CTO (Centro de Teatro do Oprimido) localizado no Rio de Janeiro, um centro de pesquisa e difusão que desenvolve a metodologia específica do Teatro do Oprimido. Lá são oferecidos cursos, workshops, leituras dramáticas... Todas envolvendo o legado de Augusto Boal.
Lembro que fiquei encantada com tudo e busquei por mais informações pra embarcar até o espaço "Boalviano". Nesse espaço de tempo, uma antiga chefe da biblioteca que eu trabalhava, sabendo do meu interesse sobre o assunto, me deu uma revista da SBAT, número especial que falava sobre o Boal e na revista, uma matéria sobre o CTO. Me lembro do meu entusiasmo que foi rapidamente ferido quando li algo do tipo "o curso não se destina à atores profissionais ou que possuem algum tipo de formação..." Tudo bem. Eu não era profissional, mas estava em uma escola de formação de atores há três anos, ou seja, teria acabado ali meu anseio por algo que eu nem tinha começado a me aventurar?
Felizmente segui minhas pesquisas sobre o assunto, mas nunca tirando da mente que talvez eu não pudesse vivenciar o método em um dos locais que eu tanto queria.
Dando um salto no tempo: em 2012, deparei-me com um assunto que até então eu conhecia só de ouvir falar, o tal do: "Fisique". A porra do porte físico específico para algum papel/personagem, agora tinha nome. Vou exemplificar para que possam entender melhor (por mais que o exemplo seja tosco, porém possível de acontecer) : A menina gorda não pode fazer o papel de princesa encantada porque é gorda. O tipo físico da atriz não convém ao tipo físico da personagem e foda-se se a atriz é dedicada na atuação. Prefere-se alguém que corresponda ao tipo físico da personagem.
Fui redundante no exemplo porque a devolutiva que obtive quando contestei tal "método" foi tão redundante quando. Ou seja, é isso e ponto.
Me lembro que fiquei louca. Quis desistir. Quiseram me confundir, dizendo que mesquinha era eu que não dava valor ao papel que me cabia. Que eu era quem tinha mania por liderança, por foco. Egocêntrica era eu.
Quase me confundiram.
A verdade era que eu via uma eleição. Onde apenas alguns eram eleitos para desfrutarem dos prazeres do "desenvolvimento de potencialidades" , enquanto outros (inclusive eu) éramos deixados de lado com: "o que você fizer, está bom." Encurtando a conversa, eu e os outros "exilados" do prazer teatral, fizemos do exílio fonte pra criação e motivo pra amadurecimento. Crescemos, demos a volta por cima e finalizamos o trabalho com a dignidade de quem descobriu seus potenciais amparados daqueles que também foram julgados incapazes. O trabalho foi concluído com sucesso, mas cheio das cicatrizes.
Outro salto no tempo: 2013.
Nesse ano eu conheci um teatro que permitia e potencializava todo e qualquer corpo em cena.
Até o meu, cheio das cicatrizes do ano anterior. Celebrei! Pela primeira vez em anos o teatro pulsou em minhas veias, aumentando meus batimentos cardíacos, deixando meu rosto corado, meu corpo suado, e ainda assim: eu estava linda em cena, eu era linda em cena, porque eu era eu.
Conheci pessoas maravilhosas, abertas, libertas, generosas. Mas como bem já disse o samba: "Laranja madura na beira da estrada tá bichada ou tem marimbondo no pé" - Tive o desgosto de conhecer dentro desse campo maravilhoso, pessoas que eram só palavras e intenções. Falsos profetas do teatro libertador.
Tudo era lindo.
O engajamento políco-artístico, a dança, o corpo, a beleza, a voz, as intenções a predestinação de ser artista desde o berço.
Tudo era podre.
Hipocrisia em todos os sentidos. Hipocrisia tamanha que destruía com toda e qualquer qualidade ou engajamento "artístico" visto até então. Se é que posso dizer, artístico.
Porém, apesar dos pesares, não desisti do que me libertou e me liberta. Acredito piamente que as boas intenções, acompanhadas de boas ações serão o antídoto pra tanta prepotência e hipocrisia. Vai chegar um momento (e está chegando) que o teatro não caberá nos umbigos dos atores sagrados desde o ventre materno.

Felizmente minha decepção com a possível ida do CTO no Rio de Janeiro teve um bonito fim. Precisei de algumas conclusões pessoais que recolhi nesses anos fazendo teatro e palavras do próprio criador do método do teatro do oprimido que agora descansa e acompanha seu legado teatral de algum lugar desse mundo. Quero compartilhar tais palavras com vocês:

"Primeiro NÃO: nãos aos "atores sagrados" preparados desde crianças para o seu sacerdócio; mas SIM ás técnicas que ajudem qualquer pessoa a utilizar o teatro como meio válido de comunicação. (...) SIM à arte de representar como manifestação possível para todos os homens (não existem 'atletas': todos os homens são atléticos e há que desenvolver as potencialidades de todos, e não só de alguns eleitos que se especializam, enquanto outros ficam relegados a simples espectadores) (...) qualquer pessoa pode começar a fazer teatro quando sentir necessidade disso. (...) A alfabetização teatral é necessária porque é uma forma de comunicação muito poderosa e útil nas transformações sociais. (...) há que utilizar todas as formas possíveis para promover a libertação; (...) NÃO aos 'atores sagrados'. Não estou contra os profissionais. Mas estou contra o fato de as representações se limitarem a profissionais! Todos devem representar!" (BOAL, 1977, p.17)

Sobre os meus estudos que com toda certeza continuarão no próximo ano, digo que é feito para aqueles que desejam MULTIPLICAR seus frutos, na árdua e possível missão do progresso social, da identificação dos opressores e libertação dos oprimidos, sendo o opressor você mesmo ou o seu próximo. Do teatro que trata o espectador como elemento fundamental da comunicação e o faz ativo. Pronto para atuar e mudar, seja ele ator ou não.
Sobre o triste método - que por mais passado que seja, ainda sobrevive - do físico ideal para qualquer linguagem artística, e sobre os falsos profetas da libertação teatral - artística - , digo pra que tomem cuidado. O método e os profetas são dissipadores de uma opressão interna que, quando não cuidada, te bloqueia pra sempre. Não existe isso. Não existe corpo "certo" ou "errado". Seu corpo é um templo! É seu. Sua abertura para experenciar é conquista de uma jornada.
Não importa se você é branco, negro, gordo, magro, de cabelo liso ou cacheado, alto, baixo, se manca, se é leve ou pesado, se tem olhos claros ou escuros, sorriso perfeito ou não, funcionário ou bancado por alguém ... NÃO IMPORTA NADA.
Importa sua disposição para experenciar e sua dedicação.
Importa você disseminar o que te libertou e não fazer disso, bomba de ar pro teu ego.
Não é provar para os outros, é provar para si mesmo e mostrar que é possível. Que o seu corpo é escada e não obstáculo.

Por ter sido alvo um dia e quase ter desistido do que me desperta todos os dias é que não aceito qualquer tipo de opressão. Principalmente as de cara lavada disfarçadas de boas intenções.
Por isso coloco a boca no trombone e digo: se você quer você pode, independentemente de qualquer coisa.
Eu quis e fiz.
Eu quero e continuo fazendo.
O mundo precisa de nós.
A arte precisa de nós.
Avante atores "profanos".




quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Devida e orgulhosamente... desconstruída.

No começo é estranho. É desesperador.
Você não sabe o que fazer.
É ruim pra caramba, uma lamúria.
Aí depois de atirar pra todos os lados você opta pelo que "sabe" fazer.
E faz.
Junta todo tipo de ornamentação possível e faz a coisa acontecer. Se esconde por detrás disso tudo.
Tem medo da exposição, de dar a cara a tapa. Se poupa.

Depois a coisa agrava porque você tem um norte.
E você a todo custo quer acertar.
Aprende com os erros da vez anterior, mas ainda assim, não arrisca. Opta novamente pelo que "sabe" fazer. E faz.
Economiza na ornamentação e coloca seu dedo, sua marca, seu estilo pessoal.
Mas ainda se esconde por detrás de tudo isso.
Corre pra lá e pra cá atrás de coisas que te ajudem, que alimentem teu imaginário, mas estes só servem pra não deixar você se arriscar.
Tudo bem.
Tem tempo.

Aí, chega um momento que você quer ter voz no negócio.
Você cansa de representar a coisa tal qual é, e dentre centenas de palavras, você escolhe aquela que lhe representa. Ponto! Estamos começando a conversar. A se arriscar.
Mas ainda assim tudo é fulgás. Você quer ter voz, mas tem medo dela.
Você não dá tempo pra tudo acontecer, você não tem um cuidado com o instrumento que lhe dará a voz. Você quer que seja rápido e passe logo.

Nesse meio tempo, você começa a pensar em desistir.
Você acha que esse tipo de coisa não é pra você, que você não vai se adaptar e que é melhor deixar pra lá. Dá uma leve agonia. Bem no fundo um desejo de: "poxa, eu queria fazer isso."
Mas o medo impede muitas coisas né.
Te trava da cabeça aos pés.


Quarenta e cinco do segundo tempo.
Ou vai ou racha. Você tem em mãos um material que lhe agrada e resolve cavocar dentro dentro dele, algo que também seja o seu discurso. Nesse tempo, você já sente maturidade com os erros anteriores e de tão cansada deles você começa a ansiar por acertar. Acertar na escolha, nos detalhes.
Planeja e realiza tudo exatamente como planejou. Isso te liberta, te abre os olhos.
Eu criei tudo isso aí?
Surgem outras oportunidades. Você fica prestes a perder o cabaço do teu bloqueio.
Relaxa, respira fundo, fecha os olhos e se entrega. Se não, não encaixa.
Você descobre que tem um corpo. Seu corpo. Único.
Um corpo. Livre de qualquer leitura estereotipada.
Seu ventre queima, seu corpo treme. Passa pela sua mente uma hipótese de loucura e por fim, você se joga do abismo. E cai. Dançando.

O final é tão desesperador quanto o começo.
A diferença é que você já se jogou do abismo. Não tem como voltar atrás.
E aí você descobre uma penca de coisas. Descobre do quanto é capaz!
Descobre que o que você faz agora, pulsa no teu corpo, acelera tua respiração e aquece da cabeça aos pés. Te faz suar por dentro, te faz suar por fora.
Essa sensação te obriga a ampliar horizontes e te dá um bem preciosíssimo: autonomia.
Você tem um corpo e está aí tudo o que você precisa pra criar.
Você tem suas inquietações, sua vivência, seu imaginário. Crie.
Faça poesia. Pire o cabeção.
Dance.
Dance Thaís.
Reúna suas inquietações e deixe o seu corpo falar.
Falando do seu quintal você se torna universal.
E você faz.
Eu fiz.
Chamei o medo pra dançar comigo.
Criei algo meu.
Poesia na minha confusão.
Arte escorria no meu rosto, deixava-me quente, em brasa!


Nunca é fácil desconstruir o que foi moldado por tanto tempo.
É difícil abrir mão dos vícios, do conforto, da comodidade.
É tenebroso, olhar pra um abismo escuro e sentir pés e mãos gelados, sabendo que uma hora ou outra você vai ter que pular.
O pulo será sua libertação.
E foi a minha.
Gradual... respeituosa. Nada a força. Tudo em seu tempo.
O vulcão contido, se alastrou.
E continuará se alastrando.
Eu creio que depois disso tudo, nunca mais serei a mesma.
Coisas, muitas delas, transpassaram-se em mim.
Fui atingida por todas elas.
Foi doloroso.
Hoje me dá prazer.
Não me cega, mas me dá possibilidades.
Me dá um corpo. Meu corpo. Só meu. Único. Potente. Criador. Grande.
Ele basta.

Não.
Nunca pensei que diria isso.
Mas nunca estive tão orgulhosa por estar devidamente desconstruída.
Nunca celebrei tanto o processo que refina a pedra bruta e tira dela o que há de melhor.
Potencializa.
Não desmerece.
Eu posso ser quem eu quiser ser do jeito que eu quiser ser onde eu quiser ser.

Gratidão! Gratidão! Gratidão!
Por existir pessoas que deem a martelada certeira e desconstruam pra construir.

Me sinto grande.
Ampla.
Maior.
Livre.


segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Nós nos contruímos com o outro.

A professora seguiu a manhã falando de relações, todo tipo delas.
Falou em como o prazer do ser humano está nas relações e fez um parâmetro um tanto quanto "clichê", mas de total concordância. Ela comparou relacionamentos afetivos com um jardim.
Aquela velha história: tenha um jardim em sua casa e esqueça de cuidar pra ver no que dá.
Caio Fernando Abreu, já escreveu sobre algo parecido. Disse que amor não resiste a tudo. Que amor é jardim e por ser jardim, enche-se de erva daninha. A amizade também, todas as formas de amor.
Eu fiquei pensando em tudo isso e fazendo algumas ligações com um papo bacana que tive com algumas pessoas no sábado a noite sobre a tal forma livre de se amar.
Confesso que na teoria, esse papo todo é absurdamente lindo e desejável. Quem não gostaria de ter tanto autocontrole a ponto de se garantir que o que você cativou é tão seu que você acaba por deixar livre pois tem confiança o bastante pra saber que se for, vai voltar... Quem não gostaria de ter maturidade suficiente pra amar sem fronteiras e ver quem você ama, amando você e mais outros... Quem não gostaria de ter tanta paz de espírito suficiente pra suprir faltas de demonstrações de afeto...

Tudo isso é maravilhoso e altamente desejável.
Eu, por exemplo, tenho tentado colocar em prática nos meus dias essa tal tranquilidade. E pra ser sincera, não tem sido nada fácil porque eu sempre fui uma pessoa que gosta de falar, de demonstrar... seja de que forma for. Viver com essa "paz de espírito" é encontrar outras formas, não tão explícitas de demonstrar afeto. A coisa é meio silenciosa, e com o silêncio eu não me dou muito bem.
Mas enfim. O discurso é todo bonito.
Confesso que desde então minhas expectativas diminuíram bastante. Queda considerável.
Chego até a me impressionar ás vezes.
Já esperei bastante por muita coisa, e se hoje espero, na pior das hipóteses, espero decepções. De tudo. De todos.
Mas, uma vez criada dentro dos princípios que calcam uma boa e bela relação afetuosa, se torna difícil mudar tudo, completamente. E eu, vez ou outra, acabo esperando mais do que a decepção.

Bom, pelo sim ou pelo não, o que me intriga nessa soltura toda é a linha entre a liberdade e a desatenção. Voltando na história do jardim, quando é que você deixa as plantas e flores tomarem  seus rumos e quando é que você entra em ação pra cortar as ervas daninhas? Quando é que você deixa a natureza completar o ciclo por si só e quando é que você esquece de regar, aparar, plantar e etc?
Citando os grandes, esses dias li algo da Clarice Lispector que dizia que "estar, também é dar." No sentido da tão cobrada, presença. A autora dizia que a presença é tão importante quanto qualquer objeto material que a gente possa dar aos nossos como forma de carinho, lembrança ou forma de suprir ausências ou até sem nenhuma pretensão. Estar também é dar algo tão valioso (ou até mais valioso) quanto a materialidade, o palpável. A presença é também um presente.
A presença, o olhar direcionado, o abraço, o beijo, o aperto de mão, uma conversa, um carinho no rosto, no cabelo... Qualquer tipo de contato que te permita uma experiência sinérgica...


Há quem diga que bons relacionamentos não precisam disso pra existir, eu digo que pode ser, mas acredito no quanto a presença (no seu mais amplo sentido) pode ser potencializadora de muitas relações. Sei dos benefícios da doação mútua, do equilíbrio entre a demonstração e a liberdade (que não pode e nem deve ser confundida com abandono).
Querer estar já é mais do que suficiente.
Se adequar as necessidades do outro (se este te importa) é nobre.
Menos expectativas e mais corações abertos é portal para as borboletas pousarem, levantarem voo e voltarem... não porque estão presas, mas porque querem e gostam de ficar.
Mas ainda assim. Cuidar das flores é importante.
Borboleta não passeia em jardim mal cuidado, não rodeia flores secas...


Que os corações estejam abertos para toda percepção necessária que faça com que os jardins, floresçam!