terça-feira, 24 de julho de 2012

Pêra madurinha

"A morte é anterior a si mesma. Ela começa muito antes, é toda uma luminosa e paciente elaboração."

Saudade é coisa lazarenta. E pra piorar, de uns tempos pra cá, passou a ter gosto.
Quando lembro da morte da minha avó, felizmente não sinto repulsa ou frustação. Fui uma neta bem presente da forma que pude. Ia pra escola de manhã, almoçava ao meio dia e lá pelas duas da tarde eu saia de casa sozinha, feito um passarinho que sai da gaiola pra ver minha vó. Na maioria das vezes eu chegava e ela estava lá, naquele corredor apertado, sem azulejo ao lado de suas flores e plantas, sentada na sua cadeira velha, com uma pêra e uma faca sem ponta na mão. Ela me via, sorria mesmo sem dentaduta, estendia sua mão com pêra e dizia: "servida fia?". Eu chego a rir ainda com essa cena, que graças a Deus ainda está colorida e nítida em minha memória (algumas outras eu já não me lembro mais).
A pêra de tão madura estava amarelinha. Ela pegava a faca sem ponta, dividia em duas partes e pêra de tão madura pingava seu caldo mais doce do que aqueles sucos de cajú que a gente compra em mercado. Metade pra mim, metade pra ela. A maciez da fruta tinha motivo: minha avó não conseguia morder com força alguns alimentos. Na verdade, as unicas frutas que ela ainda saboreava eram a banana e a pêra. E a tal da pêra era tão macia, tão macia, que derretia na minha boca. E nós sorríamos juntas com os labios molhados daquele caldinho doce.
Eu sei muito bem que toda aquela doçura não vinha só da fruta, de alguma forma ou de outra a fruta sugava das mãos da minha querida velha o amor que ela me devotava. Eu, tão pequena, nem neta de sangue. Mas de coração e que coração.
Passou-se o tempo e aquele corredorzinho apertado ganhou azuleijo e uma porta, o sol não batia mais nas plantas e elas foram morrendo aos poucos, dona Lázara já não tomava seus banhos de sol ali e na fruteira não existiam mais nem bananas e nem pêras. A história deu-se por si só. Ela se foi.Foi adoçar outros cantos, conhecer frutas mais doces e comer de todas elas, até as mais durinhas. Como lembrança me deixou o amarelinho da fruta e como prova do seu amor o doce néctar que ela possuí.


Estou morrendo de saudades vó!

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